Textos


PRESENTE DE MÃE


Um dia, na década passada, minha mãe copiou um soneto de Julio Salusse e me enviou junto com uma caixa de presente, pela passagem de aniversário de casamento - eu morava no interior e a leitura do soneto me comoveu muito, fiquei pensando muitos dias no motivo daquele envio...

Minha mãe ficou viúva cedo ainda e nunca mais se casou.
Faleceu ano passado, com 89 anos, em julho.

Depois de recebido o soneto, em seguida me separei. Meu casamento de 24 anos acabou e fui abatida por grande tristeza; agora em abril p.p., a covid levou embora o meu ex marido e pai do meu filho.

Hoje eu encontrei a cópia do soneto, que aqui transcreverei, para que vocês entendam a moral desta crônica:

OS CISNES
Julio Salusse

A vida, manso lago azul algumas
Vezes, algumas vezes mar fremente,
Tem sido para nós constantemente
Um lago azul sem ondas, sem espumas.
 
Sobre ele, quando, desfazendo as brumas
Matinais, rompe um sol vermelho e quente,
Nós dois vagamos indolentemente,
Como dois cisnes de alvacentas plumas.
 
Um dia um cisne morrerá, por certo:
Quando chegar esse momento incerto,
No lago, onde talvez a água se tisne,
 
Que o cisne vivo, cheio de saudade,
Nunca mais cante, nem sozinho nade,
Nem nade nunca ao lado de outro cisne!

 
Ene Ribeiro
Enviado por Ene Ribeiro em 10/06/2021
Alterado em 10/06/2021
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