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TRAJETÓRIA DE JORGETE


15 anos. Corpo mal formado ainda, muito magra. Os joelhos de Jorgete eram distantes um do outro, parecendo duas bolinhas em gravetos por pernas. Cabelos negros, à altura dos ombros, sempre arrepiados, dando um ar de desleixo...

Enamorou-se de Paulo, um rapaz com seus 28 anos, viciado e pequeno traficante local. Baixinho, cabeludo e barbudo, uma mini imagem do que fora Cristo.
Iniciaram romance.

Ela passava dias fora de casa e a mãe, viúva, sem nenhum meio de interceder.
Ele morava num quartinho alugado em lote com muitas portinhas e banheiro comum.
Lugar escuro, úmido, com um colchão no chão, algumas almofadas e uma coberta. Havia também umas garrafas de bebida e um penico.

Jorgete riu a primeira vez que viu o utensílio.
Aquilo parecia com as coisas da sua falecida avó, no interior.

Paulo levava o namoro adiante, mas sem muita vontade. Mais era ela quem o procurava. A princípio pela maconha que ele lhe dava, depois porque se apaixonara por ele, até ao ponto da família a prender em casa.

Na primeira oportunidade, furtou todas as jóias da mãe, colocou numa bolsinha de mão, juntou uma muda de roupas e disse a Paulo que tinham que fugir.

Ele, mais que inconsequente, aceitou ao ver o valor que as jóias poderiam gerar.
Foram para Santos, carregando um pacote de droga que seria revendida na praia.

Ficaram ali uma semana, até que a família de Jorgete os encontrou e a trouxe de volta para ser internada numa clínica para dependentes químicos.
Ela estava grávida!

A mãe exigiu o casamento...
Um padre fez a união.

Foram morar juntos.
Jorgete vendeu uma parte das terras que lhe houve por herança do pai e comprou um carro.
A vida para Paulo estava um mar de rosas. Casa, carro, mulher... As despesas cotidianas corriam por conta do aluguel de um outro imóvel que Jorgete tinha.
Só que o tal não se contentou e continuou com várias outras namoradas, mas Jorgete deslumbrada, se sentindo uma senhora, toda importante socialmente.

Nasceu Ariadne, saudável apesar da droga dos dois.
A avó deu todo o suporte, já que em casa os ânimos eram somente para balada e reunião com amigos.

Quando a menina estava com 2 anos, Paulo deu uma surra em Jorgete e a obrigou a assinar a venda de sua fazenda, fugindo com o dinheiro.
Jorgete ficou sozinha e no prejuizo, mas não perdeu o ânimo.
Muito pelo contrário: assumiu os cuidados com a filha com muito zelo e arrumou outro namoradinho, com quem passava o tempo. Deixou as drogas e parecia que se endireitava.

Paulo tinha sumido. Com dinheiro farto, se aventurou a traficar com peso mesmo e foi pego pela polícia, sendo sentenciado à prisão.
Era um desgarrado, não tinha família. Uma tia de Jorgete passou a visitá-lo na cadeia regularmente...

Nisso Jorgete já tinha se envolvido com um médico recem formado, que foi para o interior comprar cota de um hospital. Ela deixou a filha com a mãe e foi atrás. Amigaram e tiveram dois filhos. Tornou-se senhora de sociedade, uma verdadeira madame!

Paulo cumpriu seu tempo e após sair, misteriosamente se envolveu com políticos, comprando vários bens na cidade.
Jorgete estava casada numa cidade a 200 kms de distância, quando recebeu a notícia que o pai de sua filha havia morrido num desastre de moto.
Deixou o que possuía para a única filha.

Jorgete se sentiu aliviada; a menina estava amparada e acabou se formando em arquitetura e depois se casando com um dentista, com quem teve dois meninos.

Os filhos de Jorgete com o médico se formaram em medicina como o pai, que diga-se de passagem, é alcoolatra e depois de velho perdeu os freios: bebe até cair em bares, se envolve com prostitutas, tudo a céu aberto, sem a menor reserva.

Jorgete está numa pior. Por dificuldade financeira do marido, vendeu os imóveis que tinha e deu para pagamento de dívidas. Agora quer se separar, mas não tem como se manter.

Dia desses, carente emocionalmente, se sentindo preterida pelo marido que diz que ela está velha e feia, descobriu o facebook...
É o seu consolo sonhar que encontrará um príncipe encantado saído da virtualidade e lhe tirará do marasmo em que vive.
 
Ene Ribeiro
Enviado por Ene Ribeiro em 17/06/2017
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